E aí, a sua empresa comprou uma ferramenta de inteligência artificial para construir treinamentos e agora todo o problema está resolvido, não é mesmo?
Já vou te dizer que não. Mas o motivo não é o que costuma aparecer nessa conversa, e ele tem duas partes que se cruzam.
Primeira parte: a ferramenta acelera o formato errado
Olha só, as ferramentas que usam IA para construir objetos de aprendizagem são uma boa mão na roda. Elas vão ajudar a gente com uma série de coisas, agilizando a entrega e o desenvolvimento de conteúdo.
Só que tem um detalhe incômodo: elas talvez desenhem justamente num formato que hoje já não funciona mais.
Por que isso acontece
A ferramenta aprendeu com o que existe em volume, e o que existe em volume é justamente o treinamento padrão que a gente vem fazendo há anos. Ela é ótima em produzir mais rápido aquilo que já vinha sendo produzido, inclusive quando aquilo não estava funcionando.
E elas vão ser muito fáceis de usar para determinados conteúdos que talvez nem sejam mais necessários para a nossa população. O que nos leva à segunda parte.
Segunda parte: parte do conteúdo vai deixar de fazer sentido
Com a inserção da inteligência artificial no cotidiano e no trabalho, muitas das tarefas que a gente faz hoje deixam de ser necessárias. Elas podem ser substituídas por um clique dentro do editor de texto ou de imagem que a pessoa já usa.
Ou seja: boa parte do conteúdo para o qual a gente precisava de treinamento não vai mais ser preciso.
Junte as duas partes e você tem o cenário completo: a ferramenta ficou muito boa em produzir rápido um conteúdo que talvez ninguém precise mais aprender.velocidade não conserta relevância.
O que ela não faz, e que faz muita falta
Em contrapartida, existem coisas que a inteligência artificial não faz e que fazem muita falta nos nossos profissionais hoje.
Ela não é capaz de ser criativa. Não é capaz de ser crítica, de opinar. Essas são habilidades humanas, e vêm junto com a habilidade de pensar analiticamente e de criar.
Embora a gente tenha IA generativa que gera imagem e texto, ela não está criando nada do zero: está pegando algo que já existe e colocando num bom formato. O que é muito legal, e é diferente de criar.
O que faz falta hoje é gente que saiba pensar, que olhe um número, um gráfico, analise, perceba tendências e crie em cima disso.
E há muito tempo a gente deixou de treinar as pessoas nesse aspecto.
A conclusão prática
Não seremos substituídos pela inteligência artificial. Algumas funções de treinamento, sim, mas talvez sejam justamente funções que se tornariam desnecessárias de qualquer jeito.
O que precisa entrar no lugar é o desenvolvimento das principais habilidades humanas que a gente deixou de lado. E vale reparar: pensamento crítico e análise não são habilidades no sentido estrito. São capacitação, não treinamento, e por isso pedem outro desenho, mais longo e mais caro.
Se a sua dúvida é sobre a profissão em si, tem um episódio só sobre isso. E se você quer ver a conversa em profundidade, o episódio com a Rede de Avanço em Inteligência Artificial e o da Juliana de Freitas sobre IA na educação em saúde vão fundo no assunto.
E você, está colocando isso no seu planejamento? Vamos trocar uma ideia sobre isso.