Existe uma confusão que custa caro e que quase ninguém chama pelo nome: tratar informação e treinamento como se fossem a mesma coisa. Não são, e usar um no lugar do outro tem consequência.
Informação é importantíssima. Ela pode inclusive ser a base de um treinamento. Mas ela não é uma ferramenta de aprendizagem. Ela é a matéria com que se constrói a ferramenta, e isso é bem diferente.
O que um treinamento precisa ter além de informação
Treinar e capacitar são processos. Envolvem acesso à informação, sim, mas também feedback, prática com algo próximo da vida real e exercícios de discussão. Receber informação é uma parte. Sozinha, ela não desenvolve habilidade nenhuma.
O que a gente faz na prática
O que acontece na maior parte das empresas é o contrário disso: a ferramenta treinamento vira o canal padrão para disseminar informação. Saiu uma política nova, monta-se um treinamento. Mudou um processo, monta-se um treinamento.
Só que anunciar uma política nova não é treinar uma habilidade nem um comportamento. É informar. E informar tem canal próprio.
É a ferramenta errada. Pode encaixar, mas vai espanar o parafuso e estragar a chave.
A analogia é da chave de fenda usada onde o parafuso pedia Philips. Serve, dá para fazer, e é justamente por dar para fazer que ninguém percebe o estrago enquanto ele acontece.o estrago aparece depois. e não no parafuso.
O preço é maior do que o orçamento
O desperdício óbvio é de dinheiro. O que quase não se mede é o outro: quando tudo vira treinamento, as pessoas passam a achar que treinamento não tem sentido. E, do jeito que está sendo feito, elas têm razão.
Daí nasce o ranço. Ai, treinamento de novo. Treinamento só gasta dinheiro. A gente perde tempo demais com isso. A frase parece ser sobre volume, mas não é. É sobre relevância.
"Quando eu falo de recurso, eu tô falando de tempo das pessoas, da boa vontade das pessoas, das ferramentas que a gente usa, e tô falando de dinheiro."
Boa vontade é um recurso que não aparece em planilha e não se recompõe com verba. Depois que o time aprende que treinamento é perda de tempo, o próximo treinamento, mesmo o bom, começa no negativo. É a mesma raiz do problema que aparece quando o quórum some no programa de liderança.
E isso vai piorar
O momento não podia ser pior para queimar a ferramenta. O relatório do Fórum Econômico Mundial aponta que, nos próximos cinco anos, a necessidade de recapacitação nas empresas chega à ordem de 50% das pessoas.
Metade do time vai precisar aprender novas habilidades, novas funções. Isso é treinamento de verdade, do tipo que desenvolve habilidade. É exatamente a ferramenta que a gente vem gastando com comunicado interno.
Qual ferramenta para qual coisa
A separação fica simples quando a gente para e faz uma pergunta só: o que eu quero que aconteça depois?
Se o objetivo é as pessoas ficarem sabendo
Isso é comunicação. E-mail, rede social interna, jornal interno, mural, o canal de TV da empresa. Os canais existem, são baratos e funcionam.
Se o objetivo é as pessoas passarem a fazer
Isso é treinamento ou capacitação. Formação, curso, videoaula, presencial ou a distância. Ferramentas diferentes para performances diferentes.
Vale como teste antes de aprovar a próxima ação: se ninguém precisa fazer nada diferente depois, não era treinamento. Era recado.
E se a dúvida agora é onde termina o treinamento e começa a capacitação, tem um episódio só sobre essa diferença.