Mariane Pieroni é profissional de pessoas com passagem por grandes empresas e por startup. O episódio abre o Bora Facilitar, e ele é sobre uma palavra: genuíno.
Ela usa essa palavra para separar o que a empresa diz do que a empresa faz. E o episódio inteiro é uma coleção de lugares onde essa distância aparece.
O ditado que denuncia o processo
Ela repete um ditado que ouviu nas últimas grandes empresas por onde passou, e ele é bem mais grave do que soa:
A gente contrata pelo técnico, mas a gente demite pelo comportamental.
Se o motivo da saída quase nunca é o motivo da entrada, o processo de entrada está medindo a coisa errada.o critério de saída revela o critério que faltou.
E aqui ela traz uma correção de vocabulário que aprendeu num evento e adotou: empresas não deveriam buscar fit cultural. Deveriam buscar alguém que acrescenta algo.
Por que fit é a pergunta errada
Fit procura semelhança com o que já existe. Numa cultura que precisa evoluir, contratar semelhança é contratar mais do mesmo, e depois estranhar que nada muda.
Cultura que cresce até não caber
O relato sobre evolução de cultura é dos mais concretos do episódio, e serve para qualquer empresa em crescimento.
No começo eram poucas pessoas, que cresceram junto com a empresa e viviam aquilo naturalmente. Veio um CEO novo, vieram pessoas novas, e a cultura foi reescrita em oito valores.
Aí a empresa cresceu até quase sete mil pessoas. E o que era vivido por poucos virou algo grande demais para ser vivido por osmose. Vai chegando mais gente, trazendo cultura de outros lugares, e vira insustentável.
Ela tem uma frase que resolve a confusão entre cultura e discurso: o que as pessoas são na vida elas são na empresa, e o que elas são na empresa elas são na vida. Não tem como separar.
Convidar não é incluir
O trecho mais afiado é sobre diversidade, e ele veio de uma conferência de desenvolvimento em Nova Orleans, onde se falava de retrocesso no mercado.
O diagnóstico: contratou-se muito, e está se perdendo muita gente por falta de inclusão.
"As empresas convidaram para a festa, mas elas não estão chamando para dançar."
E a saída que ela propõe é de treinamento, não de campanha. Equidade, para ela, é garantir que pessoas na mesma posição tenham acesso às mesmas ferramentas e saibam usá-las. Independentemente de cor, de origem, de qualquer coisa.
Ela nota que é difícil encontrar consultoria que faça isso, e essa observação diz muito: existe muita oferta de sensibilização e pouca de capacitação. É a diferença entre informar e treinar, aplicada ao tema onde ela custa mais caro.
O de-para errado da pandemia
Tem uma parte que fala direto com quem desenha aprendizagem.
Na pandemia, as pessoas cobravam desenvolvimento o tempo todo. "Não sinto que estou sendo desenvolvido." A resposta comum foi montar hub de conteúdo, universidade corporativa.
Só que nem sempre é isso que a pessoa quer. Às vezes ela quer sala de aula, porque é assim que ela aprende.
E aí vem a crítica dela ao movimento inteiro: todo mundo foi para o online, mas fizeram um de-para errado. A mídia é diferente, ela conversa diferente. Para ter a mesma eficiência de um treinamento presencial, ela precisa ser desenhada como outra coisa, não como a mesma coisa transposta.
É exatamente o ponto de que o mesmo conteúdo aceita formatos diferentes, e de que trocar o formato sem redesenhar não é migração, é degradação.
O RH que se trata como suporte
Ela chama de lado obscuro da própria área: achar que é área de suporte.
Eu não sou uma área de suporte. Eu sou definitivamente uma área estratégica de negócio.
O que isso exige na prática é estar colada no negócio: saber em que estágio e em que maturidade cada operação está, e entender que o que se oferece para um lado não é o que se oferece para o outro.
Ela diz ter visto muita área de gente com projeto bonito e completamente descolado do negócio. É a mesma raiz do problema de indicador de treinamento: sem conexão com o resultado, a área fica na posição de quem está ali quando bate a meta e continua ali quando não bate.
E o que ela trouxe de startup para grandes empresas é o antídoto mais simples: diretriz e parâmetro em vez de política. Quanto mais simples, melhor. Bora facilitar, literalmente.
Este texto foi editado a partir do episódio Mariane Pieroni - O RH Genuíno, do canal da Bora Facilitar. As ideias e as palavras são da Fernanda Godoy; a redação para leitura é nossa.