Ela se apresenta antes de responder qualquer pergunta, e a apresentação já é a resposta. Aline Ingret Lopes Kayapó, também chamada Apyãuka, pertence a três povos: Mebengokré Kayapó, Tupinambá e Aymara.
A pergunta da Fernanda tinha sido "indígena é tudo igual?". A resposta levou meia hora e desmonta a premissa: são mais de 300 povos neste país, com mais de 275 línguas, não dialetos.
Este texto recorta a parte da conversa que trata de aprender. Vale dizer de saída que ela não vem separada do resto: durante a gravação, as crianças de que ela fala não estavam na escola, estavam com as mães ocupando a sede de uma empresa em Santarém, contra a privatização dos rios Tapajós, Tocantins e Madeira. A educação, ali, não é um assunto à parte da disputa por território.
Integrar ou interagir
A primeira distinção é de vocabulário, e é afiada.
De um lado se disse "vamos integrar". Do outro, "não, vamos interagir". Ela é direta sobre o que integração produziu: não integra seres, cobre seres. Camufla.
Guarde essa por um instante. Quem trabalha com onboarding, com fusão de times, com programa de diversidade, já viu a diferença entre as duas palavras se materializar em resultado.integrar é sobre encaixar. interagir é sobre trocar.
A pedagogia do maracá e do arco e da flecha
É assim que ela nomeia. E o mecanismo é preciso.
O maracá te dá a instrução. Você escuta, e a partir daquilo você mira. A mira é método: a forma como se mira para falar.
A minha palavra é uma flecha, e palavras não voltam. A flecha não dá ré.
Entre escutar e disparar existe uma etapa que ela chama de contemplação. Sem contemplação, diz, você não consegue se conectar.
"Quando nós temos consciência, nós conseguimos entender e compreender as mensagens que chegam até nós. E aí você ouve, e aí você mira."
Ela reage a alguém chamar isso de vadiagem: bater o maracá não é vadiagem, é busca. E aqui vale reparar numa coincidência incômoda: bater o maracá e não fazer nada visível é lido como preguiça pelo mesmo olhar que lê pensar em silêncio, numa reunião, como não estar contribuindo.
A sala multisseriada, e o que ela ensina
Esta é a parte que atravessa direto para quem monta treinamento.
Em muitos territórios a educação é multisseriada: idades e níveis diferentes no mesmo espaço. Ela descreve isso como realidade precária em muitos casos, e é honesta sobre os atritos: adolescente não quer estudar junto com criança pequena.
Mas é a Fernanda quem faz a ponte, e ela é boa: numa sala com níveis diferentes, você não tem escolha boa.
As três escolhas ruins de uma sala desnivelada
Se você fala do básico, quem já sabe dorme. Se você fala do meio, perde gente dos dois lados. Se você fala para quem já sabe, perde todo mundo embaixo. Nenhuma das três funciona, e é por isso que a saída não é escolher um nível.
A saída, ela diz, é colocar todo mundo junto e criar espaço para que se ajustem. Eles se auto-regulam: quem sabe explica com o repertório que tem, quem não sabe pergunta, e a conversa acaba encontrando um nível a partir do qual dá para seguir.
Só que isso exige parar de falar. Se você senta e começa a expor, a auto-regulação não acontece, porque não sobra espaço para ela.
É a mesma lógica dos critérios que José Pacheco descreve quando diz que a aprendizagem precisa ser ativa e socializadora. Dois territórios muito diferentes, a mesma conclusão sobre quem faz o trabalho de aprender.
Currículo individual e currículo universal
Ela também descreve uma tensão que qualquer área de T&D reconhece, ainda que noutra escala.
De um lado, o que a pessoa quer aprender, e tudo que a ajuda a chegar lá. De outro, o conjunto de saberes exigidos para entrar no sistema: no caso dela, prestar o Enem, entrar na universidade. Não dá para fugir do segundo, mesmo quando ele não conversa com o primeiro.
Trocando os nomes: de um lado o que a pessoa precisa para fazer melhor o trabalho dela; de outro o treinamento obrigatório que a empresa exige. Fingir que os dois são a mesma coisa é o que produz o ranço de treinamento.
A frase que resume
A matemática e as outras matérias, ela diz, também nasceram de um processo de contemplação. O problema não é o conteúdo. É a metodologia com que ele chega, e que muitas vezes não serve nem para quem a criou.
Nada que quer encaixar cabe na floresta.
Para quem desenha aprendizagem, essa é uma frase de trabalho, não uma frase bonita. Todo formato que você leva para dentro de um contexto foi desenhado em outro. Ou você adapta o formato ao território, ou ele vai cobrir as pessoas em vez de integrá-las.
E vale o convite que ela mesma faz no episódio: conhecer os rios da sua própria cidade. Descobrir se havia um, e por que ele foi fechado.
Este texto foi editado a partir do episódio O que a Floresta Sabe Sobre Aprender que a Academia Esqueceu?, do canal da Bora Facilitar. As ideias e as palavras são da Fernanda Godoy; a redação para leitura é nossa.