Raquel Orsati trabalha com gestão de pessoas, mudança e transformação digital, hoje à frente do Compre Agora. O negócio é varejo alimentar de vizinhança, e ela começa explicando por que isso é um laboratório do Brasil inteiro: uma loja em Belém do Pará se comporta de um jeito completamente diferente de uma no Centro-Oeste, e há populações ribeirinhas com seus mercados locais.
Mas a história que fica é de um supermercado na Holanda.
Uma fila desenhada para demorar
Lá, os supermercados são bem automatizados. E uma rede criou o caixa lento: uma fila para quem não tem pressa, para quem quer conversar.
Repare no que isso significa como decisão de projeto: alguém olhou para a métrica principal do negócio, tempo de fila, e criou deliberadamente um lugar onde ela não vale.a eficiência não é o objetivo. é um dos objetivos.
Raquel conecta isso a um debate que existe sobre farmácias, com estudos conflitantes: umas dizem que a loja física acaba, outras dizem que não, porque a interação humana é necessária. Ela fica com a segunda, e o varejo de vizinhança dá razão a ela: parte do que aquele mercadinho entrega é confiança e convívio, não só preço.
Gerir pessoas, independente de funções, é muito sobre conhecer o ser humano. O que está por trás.
Por que o porquê muda o trabalho
Ela conta de alguém do time que pergunta o tempo todo: por quê? Por que eu preciso? Onde isso entra?
E a devolutiva dessa pessoa foi reveladora: quando você não explica, a coisa perde o sentido.
O que se ganha ao ligar tarefa e estratégia
Quando a pessoa entende a cadeia inteira e onde está a contribuição dela, três coisas aparecem juntas: criatividade, autenticidade e pertencimento. Nenhuma delas se produz por campanha de engajamento.
Para quem desenha treinamento, isso é uma instrução direta de conteúdo: o "porquê" não é a introdução dispensável do módulo. É o que faz o resto ser retido.
Visão de helicóptero é rotina, não talento
Ela usa muito a expressão, e a parte interessante é o que diz sobre manter.
Visão de helicóptero é difícil de desenvolver e mais difícil ainda de manter, porque o alto também muda: a dinâmica da empresa muda, a necessidade do negócio muda. Você estava indo para a direita e agora vai um pouco mais para a frente.
Por isso ela trata como exercício diário, não como característica. A gente só enxerga mudança quando ela é grande, mas está tudo mudando o tempo todo.
A curiosidade que ninguém cobra
Aqui a conversa fica desconfortável, no bom sentido.
Ela observa que somos inundados de informação e que isso não vira conhecimento. E aponta o mecanismo: no dia a dia, ninguém cobra curiosidade de você, porque no dia a dia você está executando tarefa.
"Em pouquíssimo tempo a sua tarefa vai ser substituída. E o que resta para você ser humano?"
Ela se descreve como alguém formada numa geração de executora, treinada para resolver problema tarefeiro. E nota que fomos condicionados por séculos a funcionar como peça, não como gente.
É a mesma conclusão que aparece na conversa sobre inteligência artificial: o que sobra de humano é justamente aquilo que a gente parou de exercitar.
E ela dá um exemplo bonito do que seria treinar isso: um site que conectava estranhos de países diferentes para ficarem sessenta segundos em silêncio, olhando nos olhos. Sustentar o olhar, ela lembra, depende de tonificação do nervo vago. É treinável, como quase tudo.
Liberdade dentro de um limite
O fecho prático do episódio vem de uma ideia francesa sobre criação de filhos, o cadre: a criança precisa de liberdade dentro de um limite claro.
Ela aplica isso a time, e o resultado é uma definição de liderança em três palavras: transparência, confiança e limite explícito.
Isso aqui é permitido, isso aqui não é. Eu consigo te prover em três meses. Não é factível.
Dizer "não é factível" com clareza é mais respeitoso do que prometer e não entregar. E é o que sustenta a confiança, sem a qual, nas palavras dela, a relação até perdura, mas não vai adiante.
Ela termina admitindo que ainda não domina o equilíbrio da própria comunicação, entre o pragmatismo excessivo e o acolhimento excessivo, e que é exercício diário. É a coisa mais genuína do episódio, e vale como conselho para qualquer liderança: o dia em que se aprendeu tudo é um dia ruim.
Este texto foi editado a partir do episódio Raquel Orsati - Liderança e relações humanas no trabalho, do canal da Bora Facilitar. As ideias e as palavras são da Fernanda Godoy; a redação para leitura é nossa.