Tatá Céspedes toca a Rock Casting. Laís Lopes toca a Oxigênio, produtora de eventos corporativos. Juntas criaram o Ela Produz, e a história de como isso aconteceu é, sem que ninguém tenha planejado assim, uma história sobre formação profissional.
O mercado de eventos movimenta mais de 350 bilhões no país, algo em torno de 4,5% do PIB. E, como elas dizem sem meias palavras, não existe um processo correto e óbvio de fazer evento: existem modelos de trabalho que se ajustam à demanda e às premissas de cada um.
Começou como abrigo, não como projeto
Na pandemia, com o mercado parado, elas abriram um grupo de WhatsApp. A meta era modesta: dez amigas produtoras em quem confiavam.
"Virou um lugar seguro pra gente poder se conectar, falar o que estava acontecendo, para onde as pessoas estavam indo."
E logo virou operação: vaquinhas e cestas básicas para carregadores e para as pessoas que cuidam da limpeza dos eventos, gente com quem elas tinham relacionamento e que estava passando por maus bocados.
Repare que a primeira função da rede não foi oportunidade. Foi socorro. A oportunidade veio depois, e veio porque a confiança já existia.rede que nasce de interesse não segura ninguém.
A indicação como mecanismo, e como responsabilidade
Conforme o grupo cresceu, apareceu a pergunta óbvia: posso indicar uma amiga?
E aí elas fizeram algo pouco comum: colocaram critério. Onde trabalha, quanto tempo de experiência. E mais um, que é o que interessa a quem cuida de pessoas.
Competência não era o único critério
Elas foram explícitas: não é só a competência, tem a cultura do Ela Produz. Elas saíram de trabalhos abusivos de várias formas justamente para abrir as próprias empresas e não reproduzir aquilo. Não fazia sentido montar um grupo de mulheres e importar para dentro dele gente abusiva e competente. E, como uma delas faz questão de lembrar, não são só homens que são abusivos.
O efeito prático é que a contratação virou um lugar seguro justamente porque é por indicação: quem indica se responsabiliza. As vagas circulam, alguém precisa de assistente, alguém precisa de diretora de arte, e a cadeia se fecha entre gente que responde pelo nome que colocou ali.
O trabalho que ninguém vê
Tem um trecho sobre a equipe invisível de um evento que vale por si.
Elas comparam com o contrarregra de teatro, que se veste de preto para não aparecer na luz. São essas pessoas que garantem que o ar-condicionado funcione, que a cadeira esteja no lugar, que a canetinha esteja em cima do caderno.
A Fernanda emenda com uma regra que levava para todo treinamento que fez numa empresa de limpeza urbana: parem de colocar apelido nas pessoas.
Você me chama de cabeção, eu acho lindo. Até o dia em que eu estou de mau humor.
O trabalho que a empresa pediu e elas recusaram
O momento mais duro do episódio é sobre um cliente recusado.
Era uma feira de caminhões, e o uniforme proposto para as mulheres era um macacão coladíssimo. Elas declinaram, com jeito, e indicaram agências parceiras que atendem esse tipo de pedido.
O que impressiona é a autocrítica junto: elas reconhecem que, se aceitassem em nome do faturamento enquanto pregam outra coisa, seriam hipócritas. E deixam escapar que existe pedido de cota para "gente padrão", o que diz muito sobre o mercado.
Elas também levantam uma questão trabalhista que quase nunca é nomeada: as concorrências não remuneradas, em que agências entregam muitas horas de criação sem receber nada. Para elas, isso deveria estar dentro da conversa de ESG.
Onde isso vira formação
E aqui a história fecha o arco.
O primeiro encontro presencial teve trinta mulheres, e encerrou as inscrições porque não cabia mais ninguém no restaurante. O segundo já ocupou cinco salas. Depois virou uma agenda simultânea, com mais de quinze atrações num dia inteiro e mais de cem mulheres passando pelo espaço.
E o foco declarado passou a ser formação.
Não formação genérica: formação técnica do ofício. A Fernanda conta o que encontrou quando foi ao festival, e é essa lista que revela o tamanho da coisa: gente ensinando produção de som e imagem, gente ensinando economia para o próprio negócio, e uma mulher explicando como organizar os cabos de um grande festival para que a saída seja perfeita, porque um erro ali derruba um show inteiro.
É educação corporativa acontecendo fora da corporação, feita por pares, com currículo definido pela necessidade real de quem está na sala. Exatamente o que Rodrigo Oliveira chama de educação maior que a sala de aula, e o que Mariane Pieroni cobra das empresas quando diz que convidar não é incluir.
Elas fecham com duas frases para levar. Que a revolução é feminina. E que produção de eventos não é bico.
Este texto foi editado a partir do episódio Ela Produz - Transformando o mercado, uma indicação por vez, do canal da Bora Facilitar. As ideias e as palavras são da Fernanda Godoy; a redação para leitura é nossa.