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mulheres no mercadoeducacao corporativarh 15 de julho de 2025 4 min de leitura

O grupo de WhatsApp que virou escola

Tatá Céspedes e Laís Lopes juntaram dez amigas produtoras na pandemia. Virou uma rede de contratação por indicação e, no fim, um programa de formação.

Tatá Céspedes toca a Rock Casting. Laís Lopes toca a Oxigênio, produtora de eventos corporativos. Juntas criaram o Ela Produz, e a história de como isso aconteceu é, sem que ninguém tenha planejado assim, uma história sobre formação profissional.

O mercado de eventos movimenta mais de 350 bilhões no país, algo em torno de 4,5% do PIB. E, como elas dizem sem meias palavras, não existe um processo correto e óbvio de fazer evento: existem modelos de trabalho que se ajustam à demanda e às premissas de cada um.

O episódio que deu origem a este texto
Segunda temporada. Uma hora e vinte.

Começou como abrigo, não como projeto

Na pandemia, com o mercado parado, elas abriram um grupo de WhatsApp. A meta era modesta: dez amigas produtoras em quem confiavam.

41:55 no episódio

"Virou um lugar seguro pra gente poder se conectar, falar o que estava acontecendo, para onde as pessoas estavam indo."

E logo virou operação: vaquinhas e cestas básicas para carregadores e para as pessoas que cuidam da limpeza dos eventos, gente com quem elas tinham relacionamento e que estava passando por maus bocados.

Repare que a primeira função da rede não foi oportunidade. Foi socorro. A oportunidade veio depois, e veio porque a confiança já existia.rede que nasce de interesse não segura ninguém.

A indicação como mecanismo, e como responsabilidade

Conforme o grupo cresceu, apareceu a pergunta óbvia: posso indicar uma amiga?

E aí elas fizeram algo pouco comum: colocaram critério. Onde trabalha, quanto tempo de experiência. E mais um, que é o que interessa a quem cuida de pessoas.

Competência não era o único critério

Elas foram explícitas: não é só a competência, tem a cultura do Ela Produz. Elas saíram de trabalhos abusivos de várias formas justamente para abrir as próprias empresas e não reproduzir aquilo. Não fazia sentido montar um grupo de mulheres e importar para dentro dele gente abusiva e competente. E, como uma delas faz questão de lembrar, não são só homens que são abusivos.

O efeito prático é que a contratação virou um lugar seguro justamente porque é por indicação: quem indica se responsabiliza. As vagas circulam, alguém precisa de assistente, alguém precisa de diretora de arte, e a cadeia se fecha entre gente que responde pelo nome que colocou ali.

O trabalho que ninguém vê

Tem um trecho sobre a equipe invisível de um evento que vale por si.

Elas comparam com o contrarregra de teatro, que se veste de preto para não aparecer na luz. São essas pessoas que garantem que o ar-condicionado funcione, que a cadeira esteja no lugar, que a canetinha esteja em cima do caderno.

A Fernanda emenda com uma regra que levava para todo treinamento que fez numa empresa de limpeza urbana: parem de colocar apelido nas pessoas.

Você me chama de cabeção, eu acho lindo. Até o dia em que eu estou de mau humor.

Fernanda Godoy, sobre apelidos no trabalho

O trabalho que a empresa pediu e elas recusaram

O momento mais duro do episódio é sobre um cliente recusado.

Era uma feira de caminhões, e o uniforme proposto para as mulheres era um macacão coladíssimo. Elas declinaram, com jeito, e indicaram agências parceiras que atendem esse tipo de pedido.

O que impressiona é a autocrítica junto: elas reconhecem que, se aceitassem em nome do faturamento enquanto pregam outra coisa, seriam hipócritas. E deixam escapar que existe pedido de cota para "gente padrão", o que diz muito sobre o mercado.

Elas também levantam uma questão trabalhista que quase nunca é nomeada: as concorrências não remuneradas, em que agências entregam muitas horas de criação sem receber nada. Para elas, isso deveria estar dentro da conversa de ESG.

Onde isso vira formação

E aqui a história fecha o arco.

O primeiro encontro presencial teve trinta mulheres, e encerrou as inscrições porque não cabia mais ninguém no restaurante. O segundo já ocupou cinco salas. Depois virou uma agenda simultânea, com mais de quinze atrações num dia inteiro e mais de cem mulheres passando pelo espaço.

E o foco declarado passou a ser formação.

Não formação genérica: formação técnica do ofício. A Fernanda conta o que encontrou quando foi ao festival, e é essa lista que revela o tamanho da coisa: gente ensinando produção de som e imagem, gente ensinando economia para o próprio negócio, e uma mulher explicando como organizar os cabos de um grande festival para que a saída seja perfeita, porque um erro ali derruba um show inteiro.

É educação corporativa acontecendo fora da corporação, feita por pares, com currículo definido pela necessidade real de quem está na sala. Exatamente o que Rodrigo Oliveira chama de educação maior que a sala de aula, e o que Mariane Pieroni cobra das empresas quando diz que convidar não é incluir.

Elas fecham com duas frases para levar. Que a revolução é feminina. E que produção de eventos não é bico.

De onde veio

Este texto foi editado a partir do episódio Ela Produz - Transformando o mercado, uma indicação por vez, do canal da Bora Facilitar. As ideias e as palavras são da Fernanda Godoy; a redação para leitura é nossa.

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