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educacao corporativadesign de aprendizagem 14 de janeiro de 2025 4 min de leitura

A primeira tecnologia de ensino foi a saliva

Rodrigo Oliveira trabalha com educação há mais de 20 anos e desmonta a ideia de que inovar em aprendizagem tem alguma coisa a ver com comprar ferramenta.

Rodrigo Oliveira é gerente de ensino do AC Camargo, cuidando de formação médica, residência, pós e graduação. Estuda e trabalha com educação há mais de vinte anos, e trabalhou com ensino a distância desde 2004, na época de carregar antena para transmitir aula por satélite.

Por isso a frase dele sobre tecnologia tem peso.

O episódio que deu origem a este texto
Primeira temporada. Uma hora e quinze.

O que conta como tecnologia

Quando a conversa chega em envolver tecnologia na aprendizagem, ele corta o reflexo de todo mundo:

40:50 no episódio

"Eu tenho que lembrar que a primeira tecnologia usada para ensino e aprendizagem foi a saliva."

Não é uma tirada. É um critério: tecnologia é o que intermedeia a aprendizagem, e a voz é a mais antiga delas.ferramenta nova não é sinônimo de método novo.

E ele emenda com a definição que desarma metade dos projetos de inovação corporativa: inovar não é fazer algo totalmente diferente. A inovação muitas vezes é pequena, pontual, e não precisa transformar o ambiente inteiro.

Mas ela tem um teste. Para ele, uma inovação só conta quando é replicável: quanto disso eu consigo levar para os outros lugares, e quanto eu de fato me esforço para que isso aconteça.

A pandemia não foi ensino a distância

Esse é o ponto em que ele fala com autoridade de quem estava lá antes.

O que a maioria das instituições fez na pandemia não foi EAD. Foi usar o meio digital para continuar dando exatamente a mesma aula de sempre.

A diferença que quase ninguém fez

Ensino a distância é um desenho próprio, com lógica própria de ritmo, avaliação e presença. Transmitir a aula presencial por vídeo é transposição, não desenho. E foi isso que a maioria chamou de digitalização.

É exatamente o mesmo diagnóstico que Mariane Pieroni faz quando fala do "de-para errado": duas pessoas de mundos diferentes olhando para o mesmo erro.

E é a razão pela qual tanta gente saiu da pandemia dizendo que online não funciona. Não era online. Era presencial mal transposto.

A curiosidade é desligada cedo

A parte mais dura do episódio é sobre como a gente forma quem depois vai precisar aprender no trabalho.

Ele descreve a cena: a criança de sete anos está na fase do "por quê, por quê, por quê". Chega na escola e recebe o recado de que quem pergunta é o professor, e o papel dela é dar a resposta certa.

A gente desestimula a curiosidade.

Rodrigo Oliveira, gerente de ensino

Depois disso vem estudar para acertar no vestibular, passar na faculdade. Vinte anos depois essa pessoa chega num treinamento corporativo e alguém reclama que ela não é proativa.

Ele também aponta a lacuna que enxerga já no ensino superior: dificuldade de fazer associações, de ligar uma coisa na outra, de abstrair. Para ele, é sintoma de algo que faltou lá atrás, na alfabetização.

Avaliar no meio da própria pessoa

A saída prática que ele dá para avaliação é uma das melhores ideias do episódio, e é imediatamente aplicável.

Não peça uma tese de duzentas páginas a um músico: peça que ele apresente ao piano o que descobriu sobre aquele compositor. Não peça a alguém que explique um torno mecânico longe de um torno.

Use aquilo em que a pessoa está envolvida para que ela possa de fato demonstrar competência.

É a mesma conclusão a que a conversa sobre IA e avaliação chega por outro caminho: avaliação que pede demonstração, e não resultado, continua avaliando gente.

Ele conta também que, na pandemia, quando um aluno dizia que não conseguiu fazer a prova, a equipe ia atrás do motivo real em vez de aceitar a primeira explicação. E defende ter psicólogo no corpo de profissionais, porque nem toda trava é de conexão.

Educação virou checkpoint

O diagnóstico mais amplo dele é sobre o país.

No Brasil, estudar virou um posto de controle para conseguir vaga. As pessoas não estudam porque querem aprender: estudam porque precisam do diploma que destrava determinado cargo. E a exigência inflaciona sozinha: era segundo grau, virou graduação, virou pós, virou MBA. A qualidade cai junto, para caber mais gente.

A Fernanda faz uma confissão no meio disso que é o momento mais honesto do episódio: durante muito tempo ela achou que quem não estudava era porque não tinha se esforçado o suficiente. Era o que ouvia em casa. Levou anos e vida real para ver que não era bem assim.

Para quem trabalha com educação corporativa, o recado é direto. Se educação, na vida das pessoas, sempre foi credencial e nunca foi curiosidade, não é razoável esperar que elas cheguem ao seu treinamento com fome de aprender. Isso se constrói, e começa por um objetivo que resolva um problema real delas, não da empresa.

De onde veio

Este texto foi editado a partir do episódio Rodrigo Oliveira - Como inovar na educação?, do canal da Bora Facilitar. As ideias e as palavras são da Fernanda Godoy; a redação para leitura é nossa.

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