# A primeira tecnologia de ensino foi a saliva

Fonte: Bora Facilitar, artigo, editado a partir do episódio https://www.youtube.com/watch?v=dZnvOE1SK4c

Rodrigo Oliveira é gerente de ensino do AC Camargo, cuidando de formação médica,
residência, pós e graduação. Estuda e trabalha com educação há mais de vinte
anos, e trabalhou com ensino a distância desde 2004, na época de carregar antena
para transmitir aula por satélite.

Por isso a frase dele sobre tecnologia tem peso.

## O que conta como tecnologia

Quando a conversa chega em envolver tecnologia na aprendizagem, ele corta o
reflexo de todo mundo:

[40:50] "Eu tenho que lembrar que a primeira tecnologia usada para ensino e aprendizagem foi a saliva."

Não é uma tirada. É um critério: tecnologia é o que
intermedeia a aprendizagem, e a voz é a mais antiga delas.

E ele emenda com a definição que desarma metade dos projetos de inovação
corporativa: inovar não é fazer algo totalmente diferente. A
inovação muitas vezes é pequena, pontual, e não precisa transformar o ambiente
inteiro.

Mas ela tem um teste. Para ele, uma inovação só conta quando é replicável:
quanto disso eu consigo levar para os outros lugares, e quanto eu de fato me
esforço para que isso aconteça.

## A pandemia não foi ensino a distância

Esse é o ponto em que ele fala com autoridade de quem estava lá antes.

O que a maioria das instituições fez na pandemia não foi EAD. Foi usar o meio
digital para continuar dando exatamente a mesma aula de sempre.

**A diferença que quase ninguém fez**

Ensino a distância é um desenho próprio, com lógica própria de ritmo, avaliação
e presença. Transmitir a aula presencial por vídeo é transposição, não desenho.
E foi isso que a maioria chamou de digitalização.

É exatamente o mesmo diagnóstico que
[Mariane Pieroni faz quando fala do "de-para errado"](/artigos/convidaram-para-a-festa-mas-nao-chamaram-para-dancar/):
duas pessoas de mundos diferentes olhando para o mesmo erro.

E é a razão pela qual tanta gente saiu da pandemia dizendo que online não
funciona. Não era online. Era presencial mal transposto.

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## A curiosidade é desligada cedo

A parte mais dura do episódio é sobre como a gente forma quem depois vai
precisar aprender no trabalho.

Ele descreve a cena: a criança de sete anos está na fase do "por quê, por quê,
por quê". Chega na escola e recebe o recado de que quem pergunta é o professor,
e o papel dela é dar a resposta certa.

> A gente desestimula a curiosidade.
>
> Rodrigo Oliveira

Depois disso vem estudar para acertar no vestibular, passar na faculdade. Vinte
anos depois essa pessoa chega num treinamento corporativo e alguém reclama que
ela não é proativa.

Ele também aponta a lacuna que enxerga já no ensino superior: dificuldade de
fazer associações, de ligar uma coisa na outra, de abstrair. Para ele, é
sintoma de algo que faltou lá atrás, na alfabetização.

## Avaliar no meio da própria pessoa

A saída prática que ele dá para avaliação é uma das melhores ideias do episódio,
e é imediatamente aplicável.

Não peça uma tese de duzentas páginas a um músico: peça que ele apresente ao
piano o que descobriu sobre aquele compositor. Não peça a alguém que explique um
torno mecânico longe de um torno.

Use aquilo em que a pessoa está envolvida para que ela possa
de fato demonstrar competência.

É a mesma conclusão a que
[a conversa sobre IA e avaliação chega por outro caminho](/artigos/se-a-ia-resolve-sua-avaliacao-o-problema-e-a-avaliacao/):
avaliação que pede demonstração, e não resultado, continua avaliando gente.

Ele conta também que, na pandemia, quando um aluno dizia que não conseguiu fazer
a prova, a equipe ia atrás do motivo real em vez de aceitar a primeira
explicação. E defende ter psicólogo no corpo de profissionais, porque nem toda
trava é de conexão.

## Educação virou checkpoint

O diagnóstico mais amplo dele é sobre o país.

No Brasil, estudar virou um posto de controle para conseguir vaga. As pessoas
não estudam porque querem aprender: estudam porque precisam do diploma que
destrava determinado cargo. E a exigência inflaciona sozinha: era segundo grau,
virou graduação, virou pós, virou MBA. A qualidade cai junto, para caber mais
gente.

A Fernanda faz uma confissão no meio disso que é o momento mais honesto do
episódio: durante muito tempo ela achou que quem não estudava era porque não
tinha se esforçado o suficiente. Era o que ouvia em casa. Levou anos e vida real
para ver que não era bem assim.

Para quem trabalha com educação corporativa, o recado é direto. Se educação, na
vida das pessoas, sempre foi credencial e nunca foi curiosidade, não é razoável
esperar que elas cheguem ao seu treinamento com fome de aprender. Isso se
constrói, e começa por
[um objetivo que resolva um problema real delas](/episodios/como-planejar-um-curso/),
não da empresa.
