Ele se apresenta como designer educacional e aprendiz de utopias. Criou a Escola da Ponte, em Portugal, e passou as últimas décadas no Brasil. E entrega uma frase que parece provocação barata até você ouvir como ele chegou nela.
O dia em que ele percebeu que estava atuando
Pacheco deu aula por trinta anos. Antes disso preparava gente para a universidade, dava reforço. E o que o incomodava era ver que aqueles alunos aprendiam com ele, mas não aprendiam na escola.
Num certo dia, em vez de fazer o planejamento quinzenal como sempre, resolveu planejar só a aula do dia seguinte. Queria estar presente. Terminou à uma e meia da manhã. Daria aula às oito e meia.
Sete horas depois, entrou na sala. E foi aí que a ficha caiu.
"Não era eu que estava entrando na sala de aula. Era um ator, a representar um papel que eu tinha escrito sete horas antes."
Repare no detalhe que faz a história funcionar: ele tinha feito tudo certo. Planejou mais perto, dormiu menos, chegou preparado. O problema não era falta de preparo. Era o preparo.o roteiro é o que impede a presença.
Ele perguntou às crianças o que elas queriam fazer. Responderam: brincar. Foram brincar. E dali saiu a frase.
Numa sala de aula nada se aprende. Aprende-se o que não se deve aprender: a obediência formal.
A parte que interessa a quem treina adulto
É fácil ouvir isso e arquivar como crítica à escola. Mas a Fernanda faz a ponte na hora, porque é a dor dela: a mesma coisa acontece quando alguém abre uma apresentação mostrando a agenda do dia.
O roteiro está escrito. A conversa vai acontecer dentro dele, aconteça o que acontecer na sala. O facilitador virou ator do próprio planejamento, e nenhuma pergunta que aparecer vai mudar para onde aquilo vai.
Pacheco é ainda mais direto sobre palestra: ele diz que não faz palestra, conversa. Chegar e ler um PowerPoint, para ele, é desrespeito, porque trata o ouvinte como objeto a quem se transmite alguma coisa.
Os cinco critérios
Aqui o episódio deixa de ser provocação e vira ferramenta. Para Pacheco, a aprendizagem, em qualquer idade, acontece quando ela é significativa, integradora, diversificada, ativa e socializadora.
Como usar isso numa ação de treinamento
São cinco perguntas, não cinco adjetivos. Faz sentido para a pessoa, no problema real dela? Conecta com o que ela já sabe? Chega por mais de um caminho? Ela faz alguma coisa ou só assiste? Acontece com outras pessoas ou sozinha na frente de uma tela?
E ele mostra o primeiro critério funcionando com duas histórias de alfabetização de adultos que dizem mais sobre motivação do que qualquer teoria.
Um senhor queria aprender a ler porque era testemunha de Jeová e desconfiava que o que o pastor lia em voz alta não era bem o que estava escrito. Queria conferir.
Uma senhora queria aprender porque o marido chegava de madrugada, e ela suspeitava dos papéis no bolso do paletó dele. Aprendeu em menos de dois meses. No terceiro, tinha se separado.
A leitura é a leitura do mundo. É emancipatória.
Nenhum dos dois aprendeu porque o método era bom. Aprenderam porque a alfabetização resolvia um problema que era deles. Significativo não é sinônimo de interessante: é sinônimo de meu.
Solitário e solidário
Tem outra frase dele que atravessa direto para dentro das empresas: a profissão de professor não é um ato solitário, é um ato solidário. Nenhum professor deveria ficar sozinho numa sala.
Troque "professor" por "instrutor" ou "multiplicador" e a frase continua verdadeira. A pessoa que recebe o material pronto e vai sozinha rodar o treinamento na filial está no mesmo isolamento que ele descreve, com o mesmo resultado.
Ele também tem uma implicância específica com o vocabulário do setor, e é uma implicância útil: educação financeira, educação integral, educação inclusiva, educação antirracista. Para ele, não é necessário pôr adjetivo na educação. Educação é uma só, que se traduz em contextos específicos.
Quem trabalha com educação corporativa reconhece o padrão: a cada ciclo, um adjetivo novo para a mesma coisa mal resolvida.
O que dá para levar para a segunda-feira
Três coisas, e nenhuma exige mudar a estrutura da empresa.
A primeira é parar de abrir pela agenda. Se o encontro tem uma pergunta que importa, comece por ela. É a mesma lógica do refrão entregue logo de cara: a resposta principal vem no início, não no fim.
A segunda é testar o "significativo" antes de aprovar qualquer conteúdo. Não "isso é importante para a empresa", e sim "que problema real da pessoa isso resolve nesta semana". Sem essa resposta, o resto do desenho não salva.
A terceira é não deixar quem facilita sozinho. Ato solidário, não solitário.
E se a sua conclusão for que aquilo não era treinamento e sim comunicado, tem um texto curto só sobre isso.
Este texto foi editado a partir do episódio Numa Sala de Aula NADA se Aprende? (Com José Pacheco), do canal da Bora Facilitar. As ideias e as palavras são da Fernanda Godoy; a redação para leitura é nossa.