Nile Rodgers é o cara que mais produziu sucesso em música pop nos últimos tempos. Numa entrevista, ele conta a filosofia por trás disso: a música existe como desculpa para chegar ao refrão. Tudo antes é adiamento.
Achei aquilo e pensei em design instrucional na hora. Porque é exatamente a mesma coisa, e a gente vem fazendo ao contrário.
O erro é elegante, e é por isso que ele sobrevive
Olha só como isso acontece. É natural que, ao desenvolver conteúdo para uma ação instrucional, a gente tente construir como uma belíssima redação: começo, meio e fim. Às vezes até usando storytelling, que é uma técnica boa e legítima. E aí, onde está o problema?
O problema é que isso não é o que nos ajuda a aprender melhor.
Por que a boa redação atrapalha aqui
A gente aprende por repetição. Para evoluir nas etapas de aprendizagem é preciso repetir. Uma estrutura de redação entrega a conclusão uma vez só, no fim, quando a pessoa já está mais cansada. Ela ouve a coisa mais importante do curso exatamente no pior momento para absorvê-la.
Toda ação instrucional responde uma pergunta
Uma ação de aprendizagem existe para que a pessoa aprenda alguma coisa. Isso quer dizer que existe uma pergunta que precisa ser respondida.
Pensa num curso de vendas. A pergunta na cabeça de quem chega é: como é que eu faço para vender mais? A resposta a essa pergunta é o grande lance do treinamento.
E essa resposta não pode chegar só lá no final.
Eu dou essa resposta no começo. Nos primeiros dez minutos, eu já entrego.
"Mas você está entregando o ouro logo de cara"
Essa é a objeção que todo mundo faz. Por que a pessoa continuaria ali depois de já ter a resposta?
Porque agora começa o trabalho de verdade: eu vou trabalhar essa resposta mil vezes, repetindo de formas diferentes a cada etapa.
Num curso de vendas, se a resposta é que vender é resolver o problema do cliente e fazer ele se sentir bem com aquilo, então eu exploro o processo de venda e pergunto: como coloco isso em prática numa abertura de conversa? E na identificação de necessidades? E na objeção?
É a mesma resposta, praticada em camadas diferentes.
"Quando chega no final, a pessoa já decorou isso. Não é que ela decorou, não: ela introjetou. Ela sai com a sensação de que sempre pensou desse jeito."
Essa sensação é o objetivo, não um efeito colateral. Aprender de verdade se parece com lembrar, não com receber.o refrão fica. o verso ninguém decora.
O que isso resolve na prática
Duas coisas, e a segunda é a que dói no orçamento.
A primeira é a curva de aprendizagem, que encurta bastante.
A segunda é aquele risco que a gente sempre corre: a pessoa faz o curso, aprende, entende, e mesmo assim tem dificuldade de colocar em prática. Isso acontece porque ela não praticou o suficiente. Com o refrão entregue no começo, o resto do curso inteiro vira prática daquilo.
Conceito central
Aqui na Prando a gente chama esse refrão de conceito central. É a primeira coisa que eu entrego num treinamento, num curso, numa ação instrucional: a resposta à grande pergunta que aquela ação está respondendo.
Para achar o conceito central você precisa ter a pergunta, e para ter a pergunta você precisa do objetivo descrito. É por isso que as cinco perguntas do planejamento vêm antes desta etapa, não depois.
E se você está montando isso agora, vale lembrar que o conteúdo é só o esqueleto: o formato e a experiência ainda são decisões separadas.
Você já reparou nisso? Consegue lembrar de um curso muito bom que você fez e verificar se foi assim que ele funcionou? Estou bem curiosa.