# Numa sala de aula nada se aprende

Fonte: Bora Facilitar, artigo, editado a partir do episódio https://www.youtube.com/watch?v=nhYNf8jDXYo

Ele se apresenta como designer educacional e aprendiz de utopias. Criou a
Escola da Ponte, em Portugal, e passou as últimas décadas no Brasil. E entrega
uma frase que parece provocação barata até você ouvir como ele chegou nela.

## O dia em que ele percebeu que estava atuando

Pacheco deu aula por trinta anos. Antes disso preparava gente para a
universidade, dava reforço. E o que o incomodava era ver que aqueles alunos
aprendiam com ele, mas não aprendiam na escola.

Num certo dia, em vez de fazer o planejamento quinzenal como sempre, resolveu
planejar só a aula do dia seguinte. Queria estar presente. Terminou à uma e
meia da manhã. Daria aula às oito e meia.

Sete horas depois, entrou na sala. E foi aí que a ficha caiu.

[10:20] "Não era eu que estava entrando na sala de aula. Era um ator, a representar um papel que eu tinha escrito sete horas antes."

Repare no detalhe que faz a história funcionar: ele tinha
feito tudo certo. Planejou mais perto, dormiu menos, chegou preparado. O
problema não era falta de preparo. Era o preparo.

Ele perguntou às crianças o que elas queriam fazer. Responderam: brincar. Foram
brincar. E dali saiu a frase.

> Numa sala de aula nada se aprende. Aprende-se o que não se deve aprender: a obediência formal.
>
> José Pacheco

## A parte que interessa a quem treina adulto

É fácil ouvir isso e arquivar como crítica à escola. Mas a Fernanda faz a ponte
na hora, porque é a dor dela: a mesma coisa acontece quando alguém abre
uma apresentação mostrando a agenda do dia.

O roteiro está escrito. A conversa vai acontecer dentro dele, aconteça o que
acontecer na sala. O facilitador virou ator do próprio planejamento, e nenhuma
pergunta que aparecer vai mudar para onde aquilo vai.

Pacheco é ainda mais direto sobre palestra: ele diz que não faz palestra,
conversa. Chegar e ler um PowerPoint, para ele, é desrespeito, porque trata o
ouvinte como objeto a quem se transmite alguma coisa.

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## Os cinco critérios

Aqui o episódio deixa de ser provocação e vira ferramenta. Para Pacheco, a
aprendizagem, em qualquer idade, acontece quando ela é
**significativa, integradora, diversificada, ativa e socializadora**.

**Como usar isso numa ação de treinamento**

São cinco perguntas, não cinco adjetivos. Faz sentido para a pessoa, no
problema real dela? Conecta com o que ela já sabe? Chega por mais de um
caminho? Ela faz alguma coisa ou só assiste? Acontece com outras pessoas ou
sozinha na frente de uma tela?

E ele mostra o primeiro critério funcionando com duas histórias de
alfabetização de adultos que dizem mais sobre motivação do que qualquer teoria.

Um senhor queria aprender a ler porque era testemunha de Jeová e desconfiava
que o que o pastor lia em voz alta não era bem o que estava escrito. Queria
conferir.

Uma senhora queria aprender porque o marido chegava de madrugada, e ela
suspeitava dos papéis no bolso do paletó dele. Aprendeu em menos de dois meses.
No terceiro, tinha se separado.

> A leitura é a leitura do mundo. É emancipatória.
>
> José Pacheco

Nenhum dos dois aprendeu porque o método era bom. Aprenderam porque a
alfabetização resolvia um problema que era deles. Significativo não é sinônimo
de interessante: é sinônimo de *meu*.

## Solitário e solidário

Tem outra frase dele que atravessa direto para dentro das empresas: a profissão
de professor não é um ato solitário, é um ato solidário. Nenhum professor
deveria ficar sozinho numa sala.

Troque "professor" por "instrutor" ou "multiplicador" e a
frase continua verdadeira. A pessoa que recebe o material pronto e vai
sozinha rodar o treinamento na filial está no mesmo isolamento que ele
descreve, com o mesmo resultado.

Ele também tem uma implicância específica com o vocabulário do setor, e é uma
implicância útil: educação financeira, educação integral, educação inclusiva,
educação antirracista. Para ele, não é necessário pôr adjetivo na educação.
Educação é uma só, que se traduz em contextos específicos.

Quem trabalha com educação corporativa reconhece o padrão: a cada ciclo, um
adjetivo novo para a mesma coisa mal resolvida.

## O que dá para levar para a segunda-feira

Três coisas, e nenhuma exige mudar a estrutura da empresa.

A primeira é parar de abrir pela agenda. Se o encontro tem uma pergunta que
importa, comece por ela. É a mesma lógica do
[refrão entregue logo de cara](/episodios/o-segredo-de-um-hit-entregar-o-refrao-logo-de-cara-e-no-treinamento-me/):
a resposta principal vem no início, não no fim.

A segunda é testar o "significativo" antes de aprovar qualquer conteúdo. Não
"isso é importante para a empresa", e sim "que problema real da pessoa isso
resolve nesta semana". Sem essa resposta, o resto do desenho não salva.

A terceira é não deixar quem facilita sozinho. Ato solidário, não solitário.

E se a sua conclusão for que aquilo não era treinamento e sim comunicado, tem
[um texto curto só sobre isso](/episodios/informacao-nao-e-treinamento/).
