# O grupo de WhatsApp que virou escola

Fonte: Bora Facilitar, artigo, editado a partir do episódio https://www.youtube.com/watch?v=EFYZYjuia9s

Tatá Céspedes toca a Rock Casting. Laís Lopes toca a Oxigênio, produtora de
eventos corporativos. Juntas criaram o Ela Produz, e a história de como isso
aconteceu é, sem que ninguém tenha planejado assim, uma história sobre formação
profissional.

O mercado de eventos movimenta mais de 350 bilhões no país, algo em torno de
4,5% do PIB. E, como elas dizem sem meias palavras, não existe um processo
correto e óbvio de fazer evento: existem modelos de trabalho que se ajustam à
demanda e às premissas de cada um.

## Começou como abrigo, não como projeto

Na pandemia, com o mercado parado, elas abriram um grupo de WhatsApp. A meta era
modesta: dez amigas produtoras em quem confiavam.

[41:55] "Virou um lugar seguro pra gente poder se conectar, falar o que estava acontecendo, para onde as pessoas estavam indo."

E logo virou operação: vaquinhas e cestas básicas para carregadores e para as
pessoas que cuidam da limpeza dos eventos, gente com quem elas tinham
relacionamento e que estava passando por maus bocados.

Repare que a primeira função da rede não foi oportunidade. Foi
socorro. A oportunidade veio depois, e veio porque a confiança já existia.

## A indicação como mecanismo, e como responsabilidade

Conforme o grupo cresceu, apareceu a pergunta óbvia: posso indicar uma amiga?

E aí elas fizeram algo pouco comum: colocaram critério. Onde trabalha, quanto
tempo de experiência. E mais um, que é o que interessa a quem cuida de pessoas.

**Competência não era o único critério**

Elas foram explícitas: não é só a competência, tem a cultura do Ela Produz. Elas
saíram de trabalhos abusivos de várias formas justamente para abrir as próprias
empresas e não reproduzir aquilo. Não fazia sentido montar um grupo de mulheres
e importar para dentro dele gente abusiva e competente. E, como uma delas faz
questão de lembrar, não são só homens que são abusivos.

O efeito prático é que a contratação virou um lugar seguro justamente
porque é por indicação: quem indica se responsabiliza. As vagas
circulam, alguém precisa de assistente, alguém precisa de diretora de arte, e a
cadeia se fecha entre gente que responde pelo nome que colocou ali.

## O trabalho que ninguém vê

Tem um trecho sobre a equipe invisível de um evento que vale por si.

Elas comparam com o contrarregra de teatro, que se veste de preto para não
aparecer na luz. São essas pessoas que garantem que o ar-condicionado funcione,
que a cadeira esteja no lugar, que a canetinha esteja em cima do caderno.

A Fernanda emenda com uma regra que levava para todo treinamento que fez numa
empresa de limpeza urbana: parem de colocar apelido nas pessoas.

> Você me chama de cabeção, eu acho lindo. Até o dia em que eu estou de mau humor.
>
> Fernanda Godoy

## O trabalho que a empresa pediu e elas recusaram

O momento mais duro do episódio é sobre um cliente recusado.

Era uma feira de caminhões, e o uniforme proposto para as mulheres era um macacão
coladíssimo. Elas declinaram, com jeito, e indicaram agências parceiras que
atendem esse tipo de pedido.

O que impressiona é a autocrítica junto: elas reconhecem que, se aceitassem em
nome do faturamento enquanto pregam outra coisa, seriam hipócritas. E deixam
escapar que existe pedido de cota para "gente padrão", o que diz muito sobre o
mercado.

Elas também levantam uma questão trabalhista que quase nunca é nomeada: as
concorrências não remuneradas, em que agências entregam muitas horas de criação
sem receber nada. Para elas, isso deveria estar dentro da conversa de ESG.

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## Onde isso vira formação

E aqui a história fecha o arco.

O primeiro encontro presencial teve trinta mulheres, e encerrou as inscrições
porque não cabia mais ninguém no restaurante. O segundo já ocupou cinco salas.
Depois virou uma agenda simultânea, com mais de quinze atrações num dia inteiro
e mais de cem mulheres passando pelo espaço.

E o foco declarado passou a ser **formação**.

Não formação genérica: formação técnica do ofício. A
Fernanda conta o que encontrou quando foi ao festival, e é essa lista que revela
o tamanho da coisa: gente ensinando produção de som e imagem, gente ensinando
economia para o próprio negócio, e uma mulher explicando como organizar os cabos
de um grande festival para que a saída seja perfeita, porque um erro ali derruba
um show inteiro.

É educação corporativa acontecendo fora da corporação, feita por pares, com
currículo definido pela necessidade real de quem está na sala. Exatamente o que
[Rodrigo Oliveira chama de educação maior que a sala de aula](/artigos/a-primeira-tecnologia-de-ensino-foi-a-saliva/),
e o que
[Mariane Pieroni cobra das empresas](/artigos/convidaram-para-a-festa-mas-nao-chamaram-para-dancar/)
quando diz que convidar não é incluir.

Elas fecham com duas frases para levar. Que a revolução é feminina. E que
produção de eventos não é bico.
