Claudio Yamaguchi é autor, facilitador de aprendizagem e de conversas, e palhaço. As três coisas aparecem no mesmo episódio e, no fim, se explicam umas às outras.
A pergunta que muda a sala
Ele estava num treinamento para gerentes e fez a pergunta padrão: quem aqui se acha criativo?
Ninguém levantou a mão.
Então ele trocou a pergunta: quantos problemas vocês resolvem por dia?
Todo mundo levantou a mão.E agora, vocês se acham criativos?
Ele não ensinou criatividade a ninguém. Só mostrou que a palavra que eles usavam não descrevia o que eles faziam.a habilidade estava lá. faltava o nome.
Isso tem consequência prática direta para quem desenha treinamento: parte do que a gente chama de "falta de habilidade" é falta de reconhecimento da habilidade. E treinamento não conserta isso. Pergunta conserta.
Por que a gente não enxerga o próprio repertório
O episódio passa um bom tempo em vieses cognitivos, e o exemplo mais útil não é o de manual.
Yamaguchi conta de uma viagem à Índia onde viu pessoas trabalhando de cócoras e achou aquilo condição horrível de vida. Depois entendeu: para elas, aquela é a posição mais confortável e mais saudável. As vassouras são curtas porque se varre de cócoras. Um costureiro tinha construído um degrau para trabalhar naquela posição, por vontade própria.
O que isso ensina sobre diagnóstico
Ele olhou para uma cena e leu "problema" porque comparou com o próprio repertório. Todo levantamento de necessidade de treinamento corre esse risco: a gente olha para um comportamento que não é o nosso e conclui que falta alguma coisa, quando às vezes falta contexto do nosso lado.
Ele também dá o exemplo mais cotidiano possível: o emoji da caveira, que para uns significa morrer de rir e para outros significa morte; o joinha, que para uma geração é confirmação e para outra é ofensa. Mesma mensagem, leituras opostas, e ninguém avisou ninguém.
Manipular é mais fácil que controlar
A parte mais afiada da conversa é sobre cultura organizacional, e ela vai direto num ponto que quase ninguém verbaliza.
Você pode colocar gestão, benefícios, ferramentas e regras. Com isso você tem controle de processo. O que você não tem é controle sobre o comportamento das pessoas.
E aí vem a observação incômoda: fica muito mais fácil criar uma cultura em que as pessoas são manipuladas psicologicamente do que uma em que elas são conduzidas por regras claras. Compliance, política, mecanismo, tudo implementado, e as pessoas não necessariamente agem de acordo.
Ele chama de falso controle a ansiedade que vira microgerenciamento. A pessoa diz que não quer controlar ninguém e monta um sistema de métricas que faz exatamente isso.
"Esses mecanismos deveriam ser muito mais voltados a pensar o que está gerando o propósito da empresa, resolvendo o problema dela, engajando as pessoas nesse problema."
Para quem trabalha com educação corporativa, isso explica muita mudança de cultura que não pegou: o treinamento anunciava um comportamento novo e o sistema de reconhecimento continuava premiando o antigo. É a mesma armadilha que aparece em dá para treinar comportamentos: sem reconhecimento e reforço, a repetição não acontece.
O que um facilitador faz de verdade
Aqui a conversa chega no lugar que interessa a quem facilita.
Para ele, o papel não é levar conteúdo. É perceber que alguém no grupo está trazendo um valor que está sendo ignorado, e nomear aquilo. Uma pessoa com vinte, trinta anos de empresa carrega coisa que não teve uso na época e tem uso agora.
Ele usa a palavra regeneração, e também upcycling: pegar algo que não estava sendo valorizado e devolver valor a ele. Vale para material e vale para gente.
A criatividade está rondando, e a gente não percebe.
O palhaço entra aqui
E aí a terceira profissão fecha o raciocínio.
Yamaguchi estudou palhaço, e conta que a técnica ensinou presença. O palhaço pede material: dá material aqui, para a gente jogar junto. Ele não chega com o número pronto; ele chega com disponibilidade para o que vier.
É a mesma ideia que José Pacheco descreve quando percebe que estava atuando um roteiro escrito sete horas antes. Dois caminhos completamente diferentes, dois ofícios diferentes, e a mesma conclusão: quem chega com o roteiro fechado não está presente, e quem não está presente não facilita nada.
O que dá para levar disso para a próxima sala é pequeno e difícil: entrar sem o número pronto, e trocar a pergunta antes de concluir que falta habilidade.
Este texto foi editado a partir do episódio Claudio Yamaguchi - As habilidades humanas, do canal da Bora Facilitar. As ideias e as palavras são da Fernanda Godoy; a redação para leitura é nossa.