# Ninguém se acha criativo até alguém fazer a pergunta certa

Fonte: Bora Facilitar, artigo, editado a partir do episódio https://www.youtube.com/watch?v=2MU5AXDlARQ

Claudio Yamaguchi é autor, facilitador de aprendizagem e de conversas, e
palhaço. As três coisas aparecem no mesmo episódio e, no fim, se explicam
umas às outras.

## A pergunta que muda a sala

Ele estava num treinamento para gerentes e fez a pergunta padrão: quem aqui se
acha criativo?

Ninguém levantou a mão.

Então ele trocou a pergunta: quantos problemas vocês resolvem por dia?

Todo mundo levantou a mão.

> E agora, vocês se acham criativos?
>
> Claudio Yamaguchi

Ele não ensinou criatividade a ninguém. Só mostrou que a
palavra que eles usavam não descrevia o que eles faziam.

Isso tem consequência prática direta para quem desenha treinamento: parte do
que a gente chama de "falta de habilidade" é falta de reconhecimento da
habilidade. E treinamento não conserta isso. Pergunta conserta.

## Por que a gente não enxerga o próprio repertório

O episódio passa um bom tempo em vieses cognitivos, e o exemplo mais útil não é
o de manual.

Yamaguchi conta de uma viagem à Índia onde viu pessoas trabalhando de cócoras e
achou aquilo condição horrível de vida. Depois entendeu: para elas, aquela é a
posição mais confortável e mais saudável. As vassouras são curtas porque se
varre de cócoras. Um costureiro tinha construído um degrau para trabalhar
naquela posição, por vontade própria.

**O que isso ensina sobre diagnóstico**

Ele olhou para uma cena e leu "problema" porque comparou com o próprio
repertório. Todo levantamento de necessidade de treinamento corre esse risco:
a gente olha para um comportamento que não é o nosso e conclui que falta
alguma coisa, quando às vezes falta contexto do nosso lado.

Ele também dá o exemplo mais cotidiano possível: o emoji da caveira, que para
uns significa morrer de rir e para outros significa morte; o joinha, que para
uma geração é confirmação e para outra é ofensa. Mesma mensagem, leituras
opostas, e ninguém avisou ninguém.

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## Manipular é mais fácil que controlar

A parte mais afiada da conversa é sobre cultura organizacional, e ela vai
direto num ponto que quase ninguém verbaliza.

Você pode colocar gestão, benefícios, ferramentas e regras. Com isso você tem
controle de processo. O que você não tem é controle sobre o
comportamento das pessoas.

E aí vem a observação incômoda: fica muito mais fácil criar uma cultura em que
as pessoas são manipuladas psicologicamente do que uma em que elas são
conduzidas por regras claras. Compliance, política, mecanismo, tudo
implementado, e as pessoas não necessariamente agem de acordo.

Ele chama de falso controle a ansiedade que vira microgerenciamento. A pessoa
diz que não quer controlar ninguém e monta um sistema de métricas que faz
exatamente isso.

[47:05] "Esses mecanismos deveriam ser muito mais voltados a pensar o que está gerando o propósito da empresa, resolvendo o problema dela, engajando as pessoas nesse problema."

Para quem trabalha com educação corporativa, isso explica muita mudança de
cultura que não pegou: o treinamento anunciava um comportamento novo e o
sistema de reconhecimento continuava premiando o antigo. É a mesma armadilha
que aparece em
[dá para treinar comportamentos](/episodios/da-para-treinar-comportamentos/):
sem reconhecimento e reforço, a repetição não acontece.

## O que um facilitador faz de verdade

Aqui a conversa chega no lugar que interessa a quem facilita.

Para ele, o papel não é levar conteúdo. É perceber que alguém no grupo está
trazendo um valor que está sendo ignorado, e nomear aquilo. Uma pessoa com
vinte, trinta anos de empresa carrega coisa que não teve uso na época e tem uso
agora.

Ele usa a palavra regeneração, e também *upcycling*: pegar algo que não estava
sendo valorizado e devolver valor a ele. Vale para material e vale para gente.

> A criatividade está rondando, e a gente não percebe.
>
> Claudio Yamaguchi

## O palhaço entra aqui

E aí a terceira profissão fecha o raciocínio.

Yamaguchi estudou palhaço, e conta que a técnica ensinou presença. O palhaço
pede material: dá material aqui, para a gente jogar junto. Ele não chega com o
número pronto; ele chega com disponibilidade para o que vier.

É a mesma ideia que
[José Pacheco descreve quando percebe que estava atuando um roteiro escrito sete horas antes](/artigos/numa-sala-de-aula-nada-se-aprende/).
Dois caminhos completamente diferentes, dois ofícios diferentes, e a mesma
conclusão: quem chega com o roteiro fechado não está presente, e quem não está
presente não facilita nada.

O que dá para levar disso para a próxima sala é pequeno e difícil: entrar sem o
número pronto, e trocar a pergunta antes de concluir que falta habilidade.
