Ele pediu para ser apresentado só como Zé: designer educacional e aprendiz de utopias. Criou a Escola da Ponte, em Portugal, e há anos vive no Brasil. A gente gravou em Cabrália, e este é o papo mais fundo que o podcast já teve.
Se você tem cinquenta minutos, assista. Se não tem, o mapa da conversa está aqui embaixo, e cada ponto leva direto ao minuto no vídeo.
O dia em que ele percebeu que estava atuando
Depois de trinta anos dando aula, ele trocou o planejamento quinzenal pelo planejamento da aula do dia seguinte, para estar mais presente. Terminou à uma e meia da manhã e entrou na sala às oito e meia. E entendeu que quem entrava não era ele: era um ator representando um papel escrito sete horas antes.
Ele perguntou às crianças e elas responderam 'brincar'
Foram brincar. E dali saiu a frase que dá título ao episódio. Para ele, o que se aprende numa sala de aula é obediência formal. Emenda com outra: a profissão de professor não é ato solitário, é ato solidário. Nenhum professor deveria ficar sozinho numa sala.
Os cinco critérios da aprendizagem
Para ele, aprender acontece em qualquer idade quando a experiência é significativa, integradora, diversificada, ativa e socializadora. São cinco perguntas, não cinco adjetivos, e dá para usar como checklist de qualquer ação de treinamento.
Duas histórias de alfabetização de adultos
Um senhor quis aprender a ler porque desconfiava que o pastor não lia o que estava escrito. Uma senhora quis porque suspeitava dos papéis no bolso do paletó do marido. Aprendeu em menos de dois meses. No terceiro, tinha se separado. Significativo não é sinônimo de interessante: é sinônimo de meu.
A implicância com os adjetivos
Educação financeira, educação integral, educação inclusiva, educação antirracista. Para ele, não é preciso pôr adjetivo na educação: ela é uma só, que se traduz em contextos específicos. Quem trabalha com educação corporativa reconhece o padrão, porque a cada ciclo aparece um adjetivo novo para a mesma coisa mal resolvida.
Nunca tivemos tantos meios de comunicação, e nunca tão sozinhos
A observação dele sobre tecnologia é generosa e afiada ao mesmo tempo: as tecnologias digitais são importantíssimas, mas não dentro do sistema de ensino que existe hoje, onde acabam funcionando como válvula de escape. E a solidão do aluno, ele diz, é da mesma natureza da solidão do professor.
Numa sala de aula nada se aprende. Aprende-se o que não se deve aprender: a obediência formal.