Ele é chef premiado, toca a Vico Gastronomia, o restaurante Sé Beira-Mar na Bahia, a Mesa Solidária e o projeto Fermentação. E montou um Paris-Brest enquanto a gente conversava, porque, segundo ele, cozinheiro que não faz nada não é cozinheiro.
O episódio é sobre comida só na superfície. Por baixo, é sobre o que faz alguém aprender e o que faz alguém liderar. O mapa da conversa está aqui, e cada ponto leva ao minuto no vídeo.
Saiu de casa aos 14 e virou cozinheiro por acidente
Morou em pensão, depois em república, e carregava o lema da mãe, dona Nice: não importa o que você faça, faça legal e farto. Começou cozinhando nas festas dos amigos. Não tinha dinheiro nem panela, então propunha a troca: você compra a panela, eu faço o prato.
O pai adoeceu e ele mudou a pergunta
Filho único, viu os pais adoecerem e o pai morrer. A conclusão foi sobre tempo e sobre a diferença entre trabalhar e sustentar uma estrutura: ele queria voltar a cozinhar por prazer, não para fechar folha de pagamento.
Um pedido de água que virou método
Na primeira entrega da Mesa Solidária ele levou dois sanduíches de mortadela e um copo de refresco. O senhor agradeceu e perguntou se não tinha água, porque água é o que falta na rua. Ele tinha passado a vida querendo fazer o festão perfeito quando um galão de água já teria ajudado alguém.
Saia da inércia, faça alguma coisa, seja lá o que for. Depois você melhora.
A dólmã com o nome, antes de qualquer conteúdo
No projeto Fermentação, que forma pessoas em situação de rua, o curso começou com todo mundo de roupa de rua dentro da cozinha, visivelmente desconfortável enquanto ele falava de boas práticas. Ele parou e entregou a cada um uma dólmã com o próprio nome. Só depois a aula continuou. Pertencimento não é aquecimento de aula: é a condição para ela existir.
Ele percebeu que ia dar bronca por um erro que também cometia
Estava a caminho de esporrar a equipe quando se deu conta de que fazia a mesma coisa. E aponta as duas exigências que isso impõe a uma liderança: humildade para reconhecer, e força para não fingir que nunca fez e dar a bronca assim mesmo. O detalhe que fecha: a equipe já esperava a bronca.
A convenção de olhos vendados
Levou o time vendado até o picadeiro de um espetáculo do Cirque du Soleil. Teve quem dormisse e teve quem se transformasse, e ele não trata isso como falha: cada um está num momento. Um funcionário durão bateu na porta dele na segunda-feira seguinte.
O Paris-Brest que ele não parava de decorar
Flor de mel, borago, brotos de ervilha. A Fernanda dizia que já estava bom e ele continuava, porque estava enxergando uma coisa que ninguém mais na sala enxergava. É a definição mais curta de domínio de ofício que apareceu no podcast.